* Por Erik Nybo

Quando
analisamos comportamentos humanos, buscamos, entre outros, entender qual  a razão que levou grupos de pessoas a agirem
de determinada maneira. Isso é importante por uma série de razões: primeiro
para que possamos nos situar na sociedade atual; segundo para podermos entender
a lógica do comportamento das pessoas; terceiro, após entendermos a lógica
desse comportamento e nos situarmos, conseguirmos antecipar próximos comportamentos
e também utilizar essas informações na nossa vida profissional.

O
ponto é que algumas mudanças de comportamento mexem nas bases de como
enxergamos o mundo hoje e como nos relacionamos com ele.
Não estamos falando sobre questões divinas, mas sobre as principais instituições
sobre as quais a sociedade atual foi constituída.

Gerações

Pesquisadores
no mundo inteiro, de vários segmentos, costumam estudar como as diversas
gerações se comportam no momento em que atingem a população economicamente
ativa (PEA) para entender o seu padrão de consumo e como vão agir no mercado de
trabalho.

Assim,
sempre que surge uma nova geração ouvimos falar sobre rótulos criados para
identificar o seu comportamento no momento em que entram para a maioridade e
passam a contribuir no setor produtivo. Os rótulos criados costumam identificar
os anos em que esses grupos de pessoas nasceram, aos quais se adicionam 18 anos
para entender aproximadamente em que ano essas pessoas entram no mercado de
trabalho.

Ao
longo dos anos, nota-se que cada grupo de indivíduos se comporta de determinada
maneira com base na realidade do momento em que vivem. Eles também tem uma
tendência a pensar de um jeito específico e isso se torna importante no momento
em que a sociedade deseja entender como essas pessoas vão se inserir na lógica
de nosso sistema capitalista e como isso refletirá no futuro.

Logicamente,
esses rótulos trazem generalizações e não contém um estudo científico que
garanta sua veracidade. Assim, não há um consenso formal sobre as datas que
definem o início e o fim de cada geração, sequer sobre os traços que definem
cada uma delas. No entanto, no decorrer dos anos, identificou-se um padrão de
pensamento que pode ser de alguma forma generalizado e que acaba predominando
em cada grupo de análise. Nesse sentido, algumas formas de pensamento levaram
grupos de pessoas a agir de determinada maneira e, assim, a moldar o mundo como
conhecemos hoje. De alguma forma, esses comportamentos auxiliam a explicar
parte dos movimentos que experimentamos na sociedade atual.

É
importante ressaltar que estamos falando de um padrão e, portanto, para todo
padrão podem existir exceções.

Baby Boomers

Quando
analisamos os Baby Boomers, aquelas pessoas nascidas no período compreendido
entre 1954 e 1964, o seu objetivo de vida era cursar uma boa faculdade, ter um
trabalho em período integral (ou seja, você não deveria fazer bicos), casar e
ter filhos, comprar um carro e uma casa. Isso era sinônimo de sucesso
profissional e pessoal.

Por
conta das mudanças de um dos conceitos centrais do pensamento daquela época é
interessante notar que o conceito de família daquela época era um casal hétero com
filhos. Hoje, no entanto, existem famílias constituídas por pessoas do mesmo
sexo, as pessoas tratam seus cachorros como filhos, as famílias podem não ter
filhos, não é mais necessário realizar uma cerimônia de casamento para firmar a
transição para a vida em família e é perfeitamente aceitável que uma pessoa não
se case e opte por permanecer solteira.

Posteriormente,
com a crescente inserção da mulher no mercado de trabalho, grande parte das
famílias passou a se divorciar. Afinal, muitas pessoas não estavam preparadas
para essa mudança. Por outro lado, a mulher não dependia mais do marido para
seu sustento e por isso não precisava mais permanecer casada por necessidade.

Naquele momento, o trabalho que durante décadas havia sido muito focado em atividades braçais passou a ser muito mais intelectual, de forma que não haveria mais qualquer justificativa para o predomínio do gênero masculino no mercado de trabalho. No entanto, as famílias não estavam prontas para essa mudança. Assim, os Baby Boomers também foram responsáveis por altas taxas de divórcio para a época:

Fonte: Washington Post

No gráfico é possível notar que a partir do ano de 1980 a população com 30 anos de idade ou mais começou a se divorciar mais do que ocorria na década de 70.

Geração X

Os filhos dos Geração X, Z e Baby Boomers. O que você sabe sobre elas?, denominados de Geração X e nascidos entre 1965 e 1979, experimentaram, portanto, essa mudança na dinâmica familiar. Muitos cresceram em famílias divorciadas. Por conta da maior inserção das mulheres no mercado de trabalho e as altas taxas de divórcio, os membros da Geração X cresceram com menor supervisão dos pais. Afinal, ambos os pais estavam trabalhando durante o dia. Essa geração foi inclusive rotulada como latchkey generation(latchkey significa a chave da porta da rua da casa) – uma clara referência ao fato de que após a escola, essas crianças voltavam para uma casa vazia, pois os pais estavam trabalhando. Essa geração, no entanto, ainda cresceu com o mesmo ideal de sucesso pessoal e profissional de seus pais: empregos estáveis, com uma rotina bem estabelecida e em tempo integral para poder comprar uma casa para gerar a estabilidade para a família que deveriam ter.

Xennials

Em
seguida, surge um grupo intermediário de pessoas que não se identifica com os
ideais da Geração X e nem do grupo seguinte denominado de Geração Y (ou Millenials).  Esse grupo intermediário, chamado de Xennials,
é composto pelas  pessoas nascidas entre
1977 e 1985. Essas pessoas, diferentemente das gerações anteriores, passaram a
ter acesso à tecnologia digital numa fase tardia do seu crescimento, mas foram
capazes de incorporar à sua rotina o uso de celulares e computadores. Por essa
razão, sabem usar as redes sociais, ainda que tenham algumas dificuldades com
funcionalidades mais recentes ou tenham um pouco de dificuldade com algumas
atualizações.

Ao
mesmo tempo, é  uma geração que foi
fortemente atingida pelas crises financeiras durante sua participação no
mercado de trabalho, assim como grande parte da Geração X. No entanto, esse
grupo intermediário não possui a mesma estabilidade financeira da Geração X já
que possui menos tempo no mercado de trabalho. Essa geração já não enxerga mais
o sucesso pessoal e profissional da mesma forma como as gerações anteriores.

Se os Xennials já tiveram o acesso a tecnologia digital e ela foi incorporada na sua vida, isso significa que as próximas gerações já nascem com esse acesso. Dessa forma, muitos enxergam na Geração X a última esperança de que eles demonstrem aos mais novos como pode ser ou como era uma vida sem o smartphone dentro de uma reunião, na mesa de jantar ou numa roda de amigos. Afinal, as gerações seguintes tendem a considerar isso como um comportamento normal.M

Millenials

Em
seguida, surgem os tão comentados Millenials (geração Y), um grupo de pessoas
nascidas entre 1980 e 1994. Uma geração que traz como característica suas
reações exageradas a tudo, o que pode ser 
exemplificado pelas constantes discussões acaloradas no Facebook quando
há alguma postagem que não condiz com suas crenças (#haters). Por conta do
domínio da tecnologia digital, são capazes de provocar mudanças sociais e
políticas por meio das mesmas redes sociais (a exemplo da Primavera Árabe e o
recente Impeachment no Brasil).

Essa é a geração fruto de pais super protetores que descobriram os benefícios dos orgânicos, os perigos de fumar, a necessidade de vitaminas e a importância de passar filtro solar para evitar o câncer de pele. Por priorizarem a vida pessoal frente ao trabalho, são rotulados também de “job hoppers” (pulam entre empregos), pois já não tem a mesma noção de sucesso pessoal e profissional da Geração X. O propósito de vida parece falar mais alto. Essa também é uma geração que, por um motivo específico, também não se apega a bens, ao contrário do que ocorria nas gerações anteriores.A

Acesso, não propriedade

As
gerações Baby Boomer e X estão comprometidas em trabalhar duro a vida toda para
adquirir um bom imóvel, pois é necessário ter um lugar para a moradia da
família. Essas gerações tem essa necessidade de comprar um imóvel a qualquer
custo, ainda que isso signifique se endividar.

Como
consequência os preços dos imóveis sobem e a qualidade dos créditos cai,
chegando ao seu ápice com a crise imobiliária em 2008. Qual foi a origem dessa
crise? Preços altos de imóveis que demandavam crédito para que pessoas pudessem
comprar sua moradia e isso resultou em dívidas que não podiam ser pagas
(hipotecas subprime). Logicamente, afirmar que essa foi a única razão seria
superficial, sendo certo que a crise também foi alimentada por uma série de
especulações imobiliárias, falta de cuidado na análise de garantias, dentre
outros problemas.

Após sucessivas crises que prejudicaram a renda das famílias, não é à toa que os Millenials não mantém o mesmo interesse em comprar imóveis que as gerações anteriores. Afinal, todos estão pobres. Quando comparada a sua renda com a das gerações anteriores, essa é a primeira vez que uma geração posterior ganha menos do que a geração anterior. Millenials ganham de 20% a 43% a menos do que as gerações anteriores quando tinham a mesma idade .

Da
mesma maneira, se já não existe esse desejo de constituição de uma família como
existia antes, eu não tenho mais tanta necessidade de ter um imóvel próprio. Os
Millenials passam a morar mais tempo com seus pais e deixam de comprar imóveis
quando comparados com as gerações anteriores.

Essa pobreza inclusive criou um outro grupo de indivíduos: a Geração Nem-Nem. Ou seja, um grupo de pessoas que nem trabalha, nem estuda, reflexo dos impactos dos impactos que a economia teve na sociedade.

Geração Z

Assim,
não é uma surpresa ver que essas pessoas são a chave para a economia de acesso
– seja como criadores das grandes plataformas de compartilhamento ou como
consumidores. Ora, se eu não tenho dinheiro, mas quero uma casa na praia, um
carro de luxo ou um iate, basta que eu tenha acesso a isso. Surge assim a
economia do compartilhamento (sharing economy). Afinal, não preciso mais ter muito
dinheiro, pois eu posso de alguma forma usufruir de um bem que foi comprado por
pessoas que tiveram a oportunidade de juntar mais dinheiro durante os anos em
que tiveram um emprego estável, às vezes tendo trabalhado por 20 a 30 anos na
mesma empresa – comportamento típico das gerações anteriores.

Assim,
a economia baseada no alto consumo de bens começa a sofrer mudanças e necessita
de alguma forma se adaptar a essa nova realidade. Afinal, se as pessoas não tem
seu próprio imóvel, tendem a ter menos consumo de bens para sua própria casa e
isso passa a ser uma reação em cadeia: o varejo terá problemas pois essas
pessoas não vão comprar produtos de limpeza, a comida é feita pelos pais já que
moram na mesma casa, dentre outros reflexos. Todo esse dinheiro que antes era
gasto com esses produtos, eu como Millenial posso gastar em um Macbook, uma
GoPro ou um iPhone.

Por
fim, chegamos aos irmãos mais novos dos Millenials, a Geração Z. Formada por
pessoas nascidas entre 1996 e 2010, a Geração Z ainda não está há tempo
suficiente no mercado de trabalho para que a sociedade possa ter certeza sobre
os rótulos atribuídos a eles.

O que sabemos é que são usuários de redes sociais desde pequenos e acabam expondo sua vida a todo momento no Instagram ou às vezes não tem nem noção de que estão expondo suas vidas ao jogar Pokemon Go. Ao mesmo tempo, requerem algum grau de privacidade e, por isso, também usam o Snapchat. Afinal, já vimos quantos nudes já vazaram pelo Whatsapp. Assim, também surge uma regra de transparência na sociedade – afinal, todos estão postando tudo sobre suas vidas na internet. Se você não participa de uma rede social, você tem um comportamento suspeito por não estar participando dessa nova lógica social.

Conflito de gerações

Essa mudança ao longo dos anos na forma de pensar de cada uma das gerações não impactou apenas o consumo ou resultou em mudanças nas relações sociais ou políticas. Essas mudanças criam alterações profundas nas bases do que entendemos como sociedade e nos conceitos em que ela se fundamenta. Uma das questões essenciais para a vida em sociedade para o filósofo Locke era a noção de propriedade – mas agora estamos falando de uma economia de acesso. A noção de território está sofrendo alterações já que acidentes geográficos não são mais um limite para o que ocorre na internet em um mundo globalizado. As guerras não se limitam mais à necessidade de conquistar territórios, pois os dados são a nova riqueza. Eu não preciso mais de uma moeda emitida por um Estado, pois eu posso utilizar uma criptomoeda. Posso ser cidadão de um país, sem sequer morar lá por meio de uma residência digital . Uma robô pode se tornar cidadã de um país. A noção de punição não vem mais apenas do Estado – em uma sociedade digital, a reputação passa a retomar seu valor, uma vez que um rating ruim pode me bloquear de acessar aplicativos, vender meus serviços e até mesmo me banir de alguns direitos essenciais.

Essa
mudança nas bases do que se entende como sociedade pode causar estranhamento
para as pessoas mais velhas, afinal das contas: na época deles não era assim.
De outro lado, para alguns que se encontram ainda num modelo mental anterior e
tomados pela dinâmica da sociedade que faz com que não haja tempo de reflexão
sobre tudo o que está acontecendo surge uma dificuldade de se situar e entender
o cenário atual. Para outros, surgem oportunidades. Afinal, a curva de difusão
da inovação demonstra que alguns aderem mais rápido às novidades, enquanto
outros podem ser refratários ou ter dificuldade de acompanhar essa evolução:

Fonte: ROGERS, Everett M. Diffusion of Innovations. 3º Edição. NY: The Free Press, 1983.

O resultado dessa evolução e conflito de gerações é que a sociedade e a economia vão mudar drasticamente, revelando mudanças profundas no que entendemos por sociedade e economia nos próximos anos. As pessoas que farão parte da sociedade e da economia nos próximos anos foram impactadas por mudanças relevantes que levaram a uma nova forma de pensamento e relação com as instituições ou fundações do que entendemos como a sociedade de hoje, motivando essa mudança. Então cabe a nós agora entender exatamente como essa nova sociedade está se moldando.


Erik Fontenele Nybo, cofundador da EDEVO e head de inovação no Molina Advogados. Foi gerente jurídico global da Easy Taxi, tendo criado o departamento jurídico e foi responsável pelas questões legais em todos os países de atuação da empresa. Autor e coordenador do livro “Direito das Startups” (Juruá), autor no livro “Regulação e Novas Tecnologias” (Forum) e coordenador do curso “Direito em Startups” no INSPER. Pesquisador do GVCEPE – Fundação Getúlio Vargas. Advogado formado pela Fundação Getúlio. Email: erikfnybo@gmail.com

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