* Por Tatiana Pimenta

Desde que a pandemia eclodiu vimos os feeds das mídias sociais serem inundados por pessoas compartilhando novas atividades criativas. Alguns descobriram o TikTok, outras têm realizado cursos dos mais diversos tipos (de jardinagem a gastronomia) e parece estar em alta a fabricação de pães de fermentação natural.

Confesso que até eu ando curiosa para a aprender um pouco sobre panificação. Quem já tem prática diz que fazer pão é terapêutico, uma vez que, apesar de envolver apenas 4 ingredientes, exige uma série de técnicas, dobras e tempos de repouso para que a massa cresça e esteja pronta para ir ao forno.

A criatividade está crescendo em todos os lugares para onde olhamos, inclusive nas empresas. Como observou o jornal britânico The Economist, a pandemia está liberando organizações para experimentarem novas ideias radicais.

Historicamente, todos os períodos de crise trouxeram grandes inovações para a sociedade. A gripe espanhola, por exemplo, fez surgir a penicilina. A psicologia comportamental sugere que há uma razão psicológica por trás da explosão de criatividade. E uma nova onda de inovação pode realmente ser o lado positivo da pandemia da covid-19.

Vocês já devem estar se perguntando, mas, afinal, o que impulsiona o surgimento de novas ideias?

O piloto automático foi desligado 

É importante pensarmos que cenários de turbulência, confusão e desordem naturalmente nos tiram do piloto automático. É preciso prestar atenção e tomar novas decisões com base em uma mudança de cenário. Eis aqui o velho e primitivo dilema do ser humano: lutar ou fugir.

Esse caos implantado libera nossa capacidade cerebral e nos liberta de restrições estabelecidas por velhos hábitos. Se existe a possibilidade de ser engolida pelo leão, ou ter a vida impactada por um vírus letal, é melhor eu começar a tomar alguma ação diferente, não é mesmo?

Como o piloto automático foi desligado, passamos a ter mais consciência das nossas escolhas, decisões e atitudes. Isto, por si só, implica em um fator muito importante para a sobrevivência da nossa espécie: a adaptação. E não dá para negar que é preciso criatividade para sobreviver e se adaptar. Já viram um camaleão mudando de cor para se camuflar? Alguma semelhança com o momento que vivemos atualmente?

Mudaram-se os referenciais 

Quando os tempos parecem caóticos, mudamos nossos pontos de referência e reformulamos nossos modelos mentais, para que tentar algo novo aparentemente seja menos arriscado.

Os autores Daniel Kahneman e Amos Tversky, que desenvolveram um modelo de economia comportamental conhecido como Teoria da Perspectiva, revelam que, quando as coisas parecem ruins, nosso foco muda para tentar fazer escolhas diferentes, incluindo ideias novas e não testadas, para melhorar nossa situação.

Existe um valor inerente em “fazer alguma coisa nova” e arriscar, mesmo que as chances de erro sejam altas. Além disso, outras pessoas ao nosso redor têm mais chances de nos ajudar a seguir com a ideia.

Expectativas foram reduzidas 

Muitas pessoas estão tentando coisas novas com expectativas reduzidas. O que consideramos “falha” é muito diferente nessas condições. Quando se trata de fermento, muitos exibem pães menos do que perfeitos com tanto orgulho quanto os vencedores de concursos de panificação. Essa mudança social do perfeccionismo nos liberta do medo do fracasso que normalmente impede a inventividade.

Então, o que você pode fazer para aproveitar esse período fértil?

Tente algo completamente novo 

Lembre-se de que, quando as rotinas antigas são interrompidas, os hábitos estabelecidos são mais fáceis de quebrar. Não se trata apenas de comer ou exercitar-se de maneira mais saudável. Na verdade, isso pode ser difícil de realizar, dadas as compras com menos frequência e as academias fechadas. O que trato aqui são dos hábitos cognitivos, o tipo de rotina que nos impede de explorar. Liberte-se do velho modo de agir e pensar!

Confesso que sou altamente carnívora e sempre enfrentei alguns desafios para receber amigos vegetarianos em casa. Sempre adorei cozinhar e costumo dizer que sou especialista em culinária afetiva, aquela com cheiro de roça, mato e lembrança de casa. Sabe comida de vó? Com bastante sustância? É dessas que gosto de preparar.

Com a redução do nível de atividade física, uma das coisas que decidi fazer foi aprender a manipular vegetais e folhas, de modo a aprender receitas e novas opções de pratos sem carne. Aproveito o ato de cozinhar para prestar atenção nas cores dos alimentos, descobrir novos sabores e aromas. Descobri a potência da páprica picante, a beleza da couve-flor roxa e a sutileza da beterraba amarela.

Uma outra alternativa é pensar no que você geralmente gosta de ler, ouvir ou assistir. Agora pense sobre o contrário. Dê uma chance! A hora de ampliar seus horizontes é agora. Se você é um líder, existe um comportamento que você deseja que seus funcionários ou colegas adotem? Com os hábitos sendo reconectados, pode ser o momento de promover algumas atividades enquanto as pessoas estão mais abertas à mudança.

Assim como é mais provável que os consumidores absorvam informações familiares quando apresentadas de maneira surpreendente, este novo ambiente trazido pela pandemia de covid-19 pode nos incentivar a desacelerar e considerar o que ainda precisamos aprender.

Talvez perguntas que antes considerássemos já respondidas agora estão abertas para nova discussão. Durante as reuniões ou nas conversas pelo slack, lembre-se conscientemente de perguntar “O que há?” “Por que não?” e “E se?” – mesmo sobre tópicos familiares. Você e seus colegas não apenas terão mais chances de perceber coisas novas, mas ideias que parecem loucas hoje em dia podem ser úteis de diferentes formas, em momentos futuros.

Abraçar o imperfeito 

Aprender coisas novas e assumir riscos se tornam oportunidades de crescimento e experimentação quando não há mais padrões de “monitoramento” ou medo de arrependimento. Além disso, como muitas outras pessoas estão no mesmo barco, não sofremos a comparação incapacitante que define o “perfeito” propagado nas mídias sociais.

Especialmente se você lidera pessoas, resista à vontade de jogar água fria em novas idéias. Dê espaço para testar algumas ideias malucas e adote o “fracasso rápido” como um estilo de inovação. O conceito de open-source, termo em inglês que significa código aberto, sugere que o processo de inovação é resolvido rapidamente com a participação de uma comunidade de pessoas e comunicação sem atritos. Talvez, em um novo mundo pós-covid, precisaremos criar sistemas que capturem o melhor desses modelos de inovação colaborativos e bem-sucedidos.

É certo que teríamos o prazer de trocar todos os nossos novos hobbies e a criatividade resultante deles para retornar a um mundo mais saudável e familiar. No entanto, vale a pena considerar a inventividade desencadeada por bilhões de pessoas e o impacto que isso pode ter.

Muitas das coisas novas que estamos experimentando trarão benefícios somente a nós mesmos, mas algumas inovações nascidas durante esse período com certeza levarão a enormes avanços sociais.

Tal como acontece com o fermento natural, em que o produto inicial é um pote com aparência estranha e cheiro esquisito, o resultado final será de crescimento. Nós cresceremos e nos tornaremos melhores quando todo o processo de fermentação tiver sido concluído.


Tatiana Pimenta é CEO e fundadora da Vittude. Engenheira que se apaixonou pela Psicologia, pelo estudo constante do comportamento humano e da felicidade. Com mais de 15 anos de experiência profissional, foi executiva de sucesso em empresas de grande porte como Votorantim Cimentos e Arauco. Única brasileira finalista da premiação internacional Cartier Women’s Initiative Awards em 2019. Faz terapia há mais de 8 anos, é maratonista amadora e praticante de Mindfulness. Encontrou na corrida de rua e na meditação fontes de disciplina, foco, felicidade e produtividade. 

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