O ecossistema de startups de São Paulo atingiu um novo estágio de maturidade, consolidando-se como o principal polo de inovação da América Latina. No entanto, esse avanço estrutural ocorre em paralelo a um sinal de alerta: a cidade vem perdendo posições nos rankings globais de ecossistemas, indicando perda relativa de competitividade frente a outros hubs internacionais.

Os dados são do estudo “Avaliação do Ecossistema de Startups de São Paulo”, conduzido pelo Sebrae em parceria com a Startup Genome. O levantamento mostra que São Paulo ocupa atualmente a 37ª posição global e segue como líder na América Latina, mas enfrenta dificuldades para sustentar sua evolução no cenário internacional .

A queda gradual no ranking não está associada à falta de atividade. Pelo contrário: a cidade reúne entre 2.000 e 2.300 startups, com um valor estimado de US$ 51 bilhões e investimentos que somaram entre US$ 16 bilhões e US$ 17 bilhões entre 2021 e 2024 . O problema está na capacidade de transformar esse volume em escala global consistente.

Segundo o estudo, São Paulo já superou a fase de ativação e se encontra em um estágio avançado de globalização. Nesse momento do ciclo, o desafio deixa de ser criar startups e passa a ser escalar negócios, gerar grandes exits e ampliar presença internacional.

Ecossistema de São Paulo tem alta densidad, mas baixa coordenação

Um dos principais ativos do ecossistema paulistano é a forte rede de relacionamentos entre fundadores. A cidade apresenta alto nível de colaboração entre empreendedores, com troca frequente de conhecimento e apoio entre pares.

Apesar disso, o estudo aponta que essa densidade relacional não se converte plenamente em resultados estruturados. O ecossistema ainda opera de forma fragmentada, com baixa institucionalização de mecanismos como mentoria estruturada, governança e acesso recorrente a capital.

Na prática, São Paulo funciona bem como ambiente de conexão inicial, mas enfrenta dificuldades na coordenação de iniciativas e na construção de trajetórias mais previsíveis de crescimento. Essa falta de alinhamento sistêmico reduz a eficiência coletiva e limita a geração de scale-ups.

Internacionalização ainda é limitada

A perda de posições no ranking global está também relacionada à baixa internacionalização das startups. Apenas 5% dos clientes das empresas estão fora do Brasil e 3% fora do continente, números muito inferiores aos de ecossistemas pares.

Além disso, somente 11% das startups nascem com foco global. A maioria prioriza o mercado doméstico, impulsionada pela própria robustez da economia brasileira e pela proximidade com clientes e investidores.

Embora essa estratégia permita crescimento inicial consistente, ela limita o potencial de escala e reduz a exposição a mercados internacionais. O estudo destaca que a internacionalização ocorre de forma tardia e oportunista, e não como uma diretriz estratégica desde o início.

Esse padrão contribui para a perda relativa de competitividade global, à medida que outros ecossistemas avançam com startups já estruturadas para atuar internacionalmente desde a origem.

Gargalo no financiamento e na escala

Outro fator crítico é o desempenho do ecossistema no funil de crescimento. São Paulo apresenta forte atividade em estágios iniciais, mas enfrenta dificuldades na transição para rodadas Série A e além.

A baixa conversão entre Seed e Série A evidencia um gargalo estrutural. Entre as causas estão cheques iniciais menores, menor disponibilidade de capital no momento crítico de expansão e falta de integração entre programas de apoio.

Como resultado, muitas startups conseguem validar seus modelos, mas não têm recursos suficientes para escalar de forma acelerada. Isso impacta diretamente a geração de grandes exits e limita a evolução do ecossistema no ranking global.

Cultura de equity ainda é incipiente em São Paulo

A baixa adoção de stock options também contribui para esse cenário. Apenas 2% das startups oferecem esse tipo de incentivo de forma ampla, percentual muito inferior ao observado em ecossistemas mais maduros.

Fatores como insegurança jurídica, complexidade regulatória e preferência por remuneração imediata dificultam a disseminação do modelo. Além disso, a menor frequência de grandes exits reduz a confiança no potencial de retorno dessas estruturas.

Sem incentivos de longo prazo baseados em equity, startups enfrentam mais dificuldade para atrair talentos e construir equipes alinhadas ao crescimento acelerado — elemento central para a formação de scale-ups.

Apesar dos desafios, o estudo reforça que São Paulo possui uma base sólida. O ecossistema conta com talentos qualificados, forte presença de fundadores experientes e alta adoção de tecnologias como inteligência artificial, utilizada por mais de metade das startups.

Setores como agronegócio, saúde, varejo e bens de consumo apresentam potencial relevante de inovação e escala global. A cidade também se beneficia de sua centralidade econômica, concentrando grandes empresas e centros decisórios.

O principal entrave, segundo o relatório, não está na falta de ativos, mas na ausência de coordenação estratégica para ativá-los de forma integrada.

O desafio da próxima fase

O estudo conclui que São Paulo vive um momento decisivo. O ecossistema já demonstrou capacidade de criar startups em escala competitiva, mas precisa evoluir na conversão desse potencial em crescimento global.

A perda de posições no ranking serve como sinal de alerta: enquanto outros hubs avançam com estratégias coordenadas e foco internacional desde o início, São Paulo ainda opera com forte orientação local e baixa articulação sistêmica.

Para reverter esse cenário, especialistas afirmam que é necessário fortalecer a conectividade global, ampliar a disponibilidade de capital em estágios críticos e alinhar os diferentes atores do ecossistema em torno de objetivos comuns.

Mais do que criar novas startups, o desafio agora é fazer as existentes crescerem e competirem em escala global. É essa transição que definirá o papel de São Paulo no mapa global de inovação nos próximos anos.


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