
O executivo e empreendedor Caio Paiola assumiu uma posição no conselho administrativo da Domlexia, organização brasileira voltada ao apoio de crianças com dislexia e outras neurodivergências. O anúncio marca uma nova fase profissional do profissional de 34 anos, que atuará na aplicação de soluções de inteligência artificial voltadas a apoiar escolas e professores na identificação precoce de sinais de dificuldades de aprendizagem nos primeiros anos escolares. A movimentação ocorre após o encerramento das atividades do Pinball Space, empreendimento fundado por Paiola em Florianópolis em 2023.
A mudança de ciclo sucede o encerramento do empreendimento catarinense em julho de 2026. O espaço de entretenimento, que recebeu investimento inicial de aproximadamente R$ 1,5 milhão, obteve o selo Travelers’ Choice 2026 no TripAdvisor e alcançou a liderança da categoria “Tours & Activities” na cidade, além de registrar avaliação 4,9 no Google. Segundo o executivo, o encerramento da operação não foi motivado por questões financeiras ou operacionais, mas sim por uma decisão pessoal de concluir o ciclo e direcionar foco a novos projetos.
A trajetória de Paiola no setor de tecnologia teve início aos 18 anos. Em 2010, ingressou na Burti/Casa Vaticano, onde atuou no desenvolvimento do sistema JamWorks, plataforma de gestão de processos que atingiu cerca de 7 mil usuários. Posteriormente, em 2014, assumiu como CTO da startup HomeRefill. Na empresa, participou da implementação de algoritmos de inteligência artificial entre 2015 e 2017 para análise de padrões de consumo e previsão de estoque, período em que a plataforma alcançou 170 mil usuários cadastrados e integrou a seleção “Best of 2016” da App Store no Brasil.
Em 2017, o executivo tornou-se sócio e CTO da Studos Software, edtech de aprendizado adaptativo que implementou recursos de IA e reconhecimento de imagens para correção de avaliações. Conforme dados da empresa, a plataforma atingiu mais de 130 mil alunos em 500 escolas antes de ser adquirida em 2020 pela Arco Educação, grupo listado na Nasdaq. Após a aquisição, Paiola assumiu a liderança da divisão ArcoTech, gerenciando infraestrutura de sistemas para mais de 1,2 milhão de estudantes, e posteriormente participou do desenvolvimento da plataforma de pagamentos ArcoPay.
Com a entrada no conselho da Domlexia, o executivo passa a focar no desenvolvimento de ferramentas tecnológicas voltadas ao diagnóstico e suporte pedagógico. “Eu acho que o que mais aprendi ali foi que não dá para fazer tudo sozinho. Posso fazer tudo, mas, sem pessoas boas o suficiente ao meu lado, não vou a lugar nenhum”, declarou Paiola sobre a evolução de sua gestão. Sobre a filosofia aplicada aos seus empreendimentos e projetos, o executivo acrescenta que “o dinheiro deve ser consequência do valor que você gera para as pessoas. Quando há paixão no que você faz e um impacto real na vida delas, o retorno financeiro surge naturalmente”.
Para saber mais sobre os projetos, a GZM e o Startupi se uniram para entrevistar o executivo, confira abaixo:
GZM/Startupi: Explique como surgiu a ideia de utilizar sua bagagem em edtechs e inteligência artificial na prática para ajudar professores a identificar sinais de dislexia e neurodivergências nos primeiros anos escolares?
Caio Paiola: A escola já produz um volume enorme de informação, padrões de erro, evolução entre avaliações, tempo de resposta e quase nada disso recebe a devida atenção. Vi isso de perto na Studos, onde a plataforma acompanhava mais de 130 mil alunos: o sinal está lá, o que falta é alguém lendo. Nos primeiros anos escolares esse sinal é especialmente valioso, porque é quando uma intervenção pode mudar o resultado de uma vida inteira. A ideia é usar a inteligência artificial nesse momento para coletar e compilar tudo isso de forma simples, entregando ao professor o que ele precisa para agir. Isso pode ser um grande salto na vida de muitas crianças.
GZM/Startupi:: De que forma o conselho da Domlexia pretende estruturar a governança para garantir que o uso de algoritmos de IA no diagnóstico precoce mantenha a ética, a precisão e a sensibilidade humana no ambiente pedagógico?
Caio Paiola: Vale destacar que o sistema não faz o diagnóstico. Diagnóstico é um ato clínico, multidisciplinar, e vai continuar sendo. O que queremos é trazer a tecnologia para a triagem: ajudar o professor a identificar comportamentos que antes passavam despercebidos e sinalizar os casos que merecem um olhar especial. Essa celeridade faz diferença justamente nos primeiros anos do ensino, e é esse o impacto que queremos gerar.
A IA é uma ferramenta para apoiar os profissionais, não para substituí-los. Ela traz clareza para o professor dar encaminhamento a casos que antes não eram percebidos, ativando ao longo do caminho os responsáveis e os especialistas, psicopedagogos e neuropsicólogos que conduzem a avaliação de fato.
GZM/Startupi:: O Pinball Space encerrou as atividades no topo das avaliações e sem problemas financeiros. Como foi o processo de tomada de decisão pessoal para fechar um negócio de sucesso em prol de novos ciclos?
Caio Paiola: O Pinball Space fechou saudável, no topo das avaliações, e isso foi uma escolha, não uma consequência. Foi um dos processos mais difíceis que já vivi, porque fechar um negócio que dá certo contraria todo instinto.
O que pesou foi a natureza do negócio. Operação física de entretenimento é um negócio de presença. O acervo era de máquinas raras, a manutenção era especializada, a experiência do cliente dependia de curadoria diária. Não era um negócio que sobrevivia à ausência do dono, e eu não queria entregar ao mercado uma versão pior daquilo que a gente tinha construído. Preferi encerrar no ponto mais alto.
Depois do nascimento da minha primeira filha, as prioridades mudaram, o futuro abriu novas opções e essa decisão se tornou necessária onde tive que organizar todo meu tempo disponível e priorizar.
GZM/Startupi:: Quais foram os principais aprendizados estratégicos no comando de uma operação física de entretenimento que você pretende carregar para o ecossistema de tecnologia e impacto social?
Caio Paiola: Levo três aprendizados principais.
O primeiro é o feedback imediato. Em software você lê métrica; no bar você vê a cara da pessoa. Não tem dashboard que substitua ver alguém desistindo de uma máquina porque a fila está grande ou a moeda travou. Isso reeducou meu senso de urgência sobre fricção de produto e sobre os problemas do dia a dia.
O segundo é que o produto é a experiência inteira, não a funcionalidade. Ninguém ia ao Pinball Space pelas máquinas. Eles iam pela música, pelo cardápio, pelo atendimento, pela sensação de entrar em outra década. Nenhum desses elementos, sozinho, explicava a nota 5.0. Em tecnologia a gente tende a otimizar a feature e esquecer o contexto em volta dela. A feature não é o centro; é uma parte da experiência completa.
O terceiro é disciplina de unidade econômica. Bar não tem rodada de investimento: ou o caixa fecha no fim do mês ou não existe mês seguinte. Isso me tornou muito mais rigoroso com custo por usuário, margem e sustentabilidade real de um modelo e é justamente o que mais falta em projetos de impacto social, que muitas vezes têm a tese certa e o modelo econômico errado.
GZM/Startupi:: Na Studos, você viveu a jornada completa de tração até a aquisição pela Arco Educação. Quais foram os maiores desafios técnicos e de produto para escalar a plataforma até 130 mil alunos e concretizar o M&A?
Caio Paiola: O maior desafio técnico não era volume médio, era os picos. Educação é sazonal de forma brutal: em dia de simulado, milhares de alunos entram na mesma janela de minutos. É como ter uma Black Friday de carga a cada simulado. A arquitetura precisava aguentar o pior dia do ano, não a média.
O segundo foi a realidade da tecnologia disponível nos ambientes escolares. Tínhamos que lidar com escolas remotas, sem boa conexão de internet, e, na correção de provas, com fotos de celular com sombra, papel amassado e folha torta. Fazer a tecnologia funcionar nessas condições, e não só no laboratório, foi um dos desafios mais árduos dessas implantações.
Do lado do M&A, o aprendizado foi que due diligence técnica é uma auditoria da sua disciplina dos anos anteriores. Não dá para arrumar a casa em três meses. O que fez a diferença foi a tecnologia contar uma história coerente e auditável e, depois da aquisição, continuar operando durante a integração, sem parar de entregar para os alunos que já dependiam da plataforma.
GZM/Startupi:: Na HomeRefill, você já aplicava IA para predição de consumo há quase uma década. O que mudou na complexidade de criar modelos de IA daquela época para os dias de hoje?
Caio Paiola: Em 2015, na HomeRefill, não existia modelo pronto para pegar na prateleira. A gente construía do zero: engenharia de atributos na mão, série temporal, modelagem estatística clássica, infraestrutura própria para treinar. Cada ganho de acurácia custava semanas. E o dado era escasso para prever quando alguém ia acabar o sabão em pó, você precisava de um histórico que ainda não tinha.
Hoje a barreira de entrada caiu de forma radical. Qualquer pessoa acessa modelos de fundação por API em uma tarde. Só que o problema difícil mudou de lugar. Antes o desafio era fazer o modelo funcionar. Hoje o desafio é tudo em volta dele: ter dado proprietário que ninguém mais tem, saber avaliar se a saída está certa, controlar custo por inferência, garantir comportamento previsível e transformar aquilo em produto que alguém use de verdade.
Em outras palavras: em 2015 a IA era a parte difícil. Hoje a IA é a parte fácil, e a diferenciação está no problema que você escolhe resolver e nos dados a que você tem acesso.
GZM/Startupi:: Você pontuou que “não dá para fazer tudo sozinho” e que “o dinheiro deve ser consequência do valor gerado”. Como essa filosofia de gestão molda a sua escolha por projetos e a formação das suas equipes?
Caio Paiola: “Não dá para fazer tudo sozinho” é uma lição que aprendi na marra, sendo o desenvolvedor que achava que resolvia tudo escrevendo mais código. Não resolve. A partir de certo ponto, o limite deixa de ser técnico e passa a ser as horas do dia. Meu dia tem 24 horas, e nem todas cabem no trabalho. A escalabilidade horizontal é o segredo, e a delegação é o desafio. Poder contar com mais pessoas para compartilhar os desafios e os problemas é, sim, a melhor forma de alcançar os objetivos: pessoas diversas para desafios diversos, um ecossistema rico de pensamentos que propõe soluções mais claras.
“O dinheiro deve ser consequência do valor gerado” é o filtro que uso para escolher meus projetos. Se eu não consigo explicar em uma frase para quem aquilo melhora a vida, e como, provavelmente não é o projeto para mim. Não devemos correr atrás do dinheiro; ele sempre será consequência de um bom trabalho. Prefiro focar em resolver problemas reais das pessoas a pensar em quanto posso ganhar com determinado negócio.
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