Foi exatamente como geralmente ocorre no mundo dos negócios, quando a disrupção vem de fora do ecossistema. E o mercado de alimentação, que já não ia lá essas coisas depois da pandemia, acabou disruptado por um… remédio. O nome dele é GLP-1, popularmente conhecido como “caneta emagrecedora”, que já atinge 5,5% dos brasileiros, superando a média mundial de 3,7%, uma adoção rápida que criou um campo único de oportunidades e que levou centenas de foodtechs na busca para atender um consumidor que, de forma fundamental, alterou seus desejos alimentares, literalmente.

Olhando os números, 70% dos usuários de GLP-1 afirmaram comer menos e mencionam que estão evitando lanches, o que desmantela a noção clássica de um dos setores poderosos dessa cadeia, a de fast food. E as startups que conseguirem capturar essa mudança de comportamento é que redefinirão a dinâmica do setor alimentício.

O perfil do novo consumidor: proteína rica em baixas calorias

Os números que pesam no setor são os dados de que 60% dos usuários de GLP-1 vão a restaurantes com menos frequência, ponto. Mas, claro, ainda vão, porém, quando o fazem, o pedido mudou. Isso ocorre porque, normalmente, quem toma esses remédios tende a dar mais valor a alimentos ricos em proteína e menos aos que são mais calóricos ou consumidos por impulso. Segundo pesquisas, os usuários desses fármacos ingerem, em média, 40% menos calorias e reduzem em 84% o consumo de sobremesas. São indicadores implacáveis como esses que deram origem a um novo arquétipo de produto: refeições equilibradas em porções diminutas, com o que antes era considerado um lanche, agora sendo considerado um almoço.

Startups estrangeiras preparam o terreno

No mercado americano, algumas foodtechs identificaram a oportunidade antes mesmo de o mercado reconhecê-la. Wonderbelly, Pendulum e Daily Harvest mudaram suas estratégias de marketing para se adequar a esse público, oferecendo produtos que complementam o tratamento: ricos em proteínas, rápidos de preparar e com baixo volume por porção. A Daily Harvest, por exemplo, que atua como plataforma de refeições pré-preparadas, acaba de lançar sua nova coleção GLP-1, que consiste em smoothies proteicos à base de plantas, preparados com uma variedade de frutas e vegetais ricos em nutrientes, fornecendo as vitaminas e minerais que as pessoas que fazem uso de medicamentos GLP-1 podem não atingir devido à redução do apetite. 

A Pendulum, por sua vez, uma empresa iniciante na área de probióticos, comercializou seus suplementos como “turno de fibra em butirato para apoiar produção natural de GLP-1”, direcionando seu produto tanto para os usuários de medicamentos quanto para aqueles que desejam estimular a saciedade de forma natural. E vale o registro de que essas startups não apenas alteraram os ingredientes, mas mudaram, de fato, toda a história.

Brasil em destaque: restaurantes experimentam buffets sob medida

No Brasil, a NotCo revelou a criação de um produto que induz o organismo a aumentar a produção natural do hormônio GLP-1, um exemplo de capacidade de resposta. Como fez uma startup chilena, especializada em inteligência artificial para o setor de alimentos plant-based, que apresentou o GLP Booster, um pó botânico que pode ser incorporado a qualquer alimento para auxiliar na diminuição do apetite, e que, segundo a empresa, promete estar disponível ainda neste ano no Brasil. De acordo com Matias Muchnick, o fundador e CEO da NotCo: “a maneira como as pessoas comem está mudando…a comida deve ser parte da solução, não do problema”. 

E o movimento tem requerido ajuste dos restaurantes, que já estão buscando seu caminho, como mostra a matéria especial da GZM que pode ser acessada no link logo abaixo.

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Matéria especial GZM: O dilema do prato pela metade: como a era dos remédios para emagrecer pressiona a economia dos restaurantes

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Como mostra a matéria da GZM, no ambiente dos restaurantes a onda também tem mostrado seu impacto, com o cliente escolhendo um buffet que mostra, ao mesmo tempo, conveniência, variedade e liberdade de escolha na hora de decidir o que consumir, com uma montagem do prato conforme seu apetite e estilo alimentar do momento. Assim, grandes redes, como a Divino Fogão, relatam que os clientes estão se movendo em direção a refeições que são mais equilibradas e menos focadas em bebidas alcoólicas. Elementar, meu caro…

Um padrão que está surgindo

Essa tendência notada até aqui possui uma base sólida. A rede americana de comida mexicana Chipotle, por exemplo, está buscando endereçar essa oportunidade de forma clara: um bowl personalizável onde o consumidor tem total controle sobre os ingredientes e suas quantidades. O conceito já está em prática, mas não basta inserir isso nas opções, é também necessário alterar a forma como se posiciona no mercado, algo mais difícil para redes que, historicamente, se vendiam como opção rápida e barata, sem nunca se apegar na saudabilidade como um de seus atributos primários.

Por isso, entrantes sem história podem até sair de um ponto de partida mais fácil, como a Florien Fitoativo, que promove seu suplemento Akkermat como uma solução para evitar o efeito de ‘reganho’ de peso após o término do uso das canetinhas. Outro exemplo é o lançamento do Biomansia, que promete estimular a produção de GLP-1 pelas células do intestino. São empresas que identificaram uma oportunidade clara: o consumidor que recorre à medicação não deseja consumir menos alimentos, mas sim optar por alimentos de melhor qualidade, em uma quantidade que seu “novo estômago” possa processar sem causar desconforto.

O perigo de agir cedo em comparação com o perigo de ficar inativo

Parece claro a todos que um consumidor novo, mais informado e intencional em suas escolhas alimentares, está pressionando as empresas a reavaliarem de forma significativa suas estratégias, portfólio e operações. As startups que se empenharam nesse reposicionamento correm dois riscos: o de subestimar a duração da tendência (e assim perder investimento em um segmento passageiro) ou o de negligenciar o fato de que este fenômeno não é uma moda passageira, mas uma mudança estrutural no comportamento. 

E o gestor de restaurante que atualmente observa metade de uma refeição sair da cozinha sem reconhecer que isso é a nova realidade está tão exposto a riscos quanto aquele que investe fortemente em uma única opção proteica. Ou seja, a equação permanece em aberto. E startups precisam usar sistemas de inteligência para experimentar suposições. 

Por fim, a sobrevivência do negócio, como também mencionado na matéria da GZM, depende de reconhecer que o cliente ainda está presente, certamente. Mas, agora, em uma escala diferente. E menor.

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