
A SBPC, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, não poupou esforços para colocar a ciência em evidência durante o segundo turno ao enviar dez questões idênticas às candidaturas de Lula e Flávio Bolsonaro. A iniciativa, chamada de Observatório das Eleições 2026, pretendia fomentar propostas fundamentadas em evidências e pressionar os candidatos a detalharem suas estratégias para lidar com questões que vão desde inteligência artificial e energia até saúde, clima e desigualdade.
Para o público executivo, o exercício é bastante prático. As respostas indicam prioridades em áreas como política industrial, financiamento à pesquisa, regulação no ambiente digital, segurança jurídica e transição energética, fatores que influenciam planos de investimento, cadeias produtivas, contratação de talentos e acesso a crédito para inovação.
Um levantamento econômico
E as dez questões vão além do orçamento de universidades e institutos. Elas abordam o papel do Brasil nas rivalidades geopolíticas e tecnológicas, a proteção institucional contra a desinformação, a diminuição das desigualdades regionais, raciais e de gênero, e a habilidade do país de transformar recursos naturais em indústria e conhecimento.
Existem questões concretas acerca do reforço do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), das universidades e da formação de cientistas; sobre a produção nacional de fármacos, vacinas e equipamentos; e sobre a preparação de cidades, da agricultura e da infraestrutura para eventos climáticos extremos.
Um outro bloco abordou questões de enorme importância corporativa: capacidade interna em inteligência artificial, infraestrutura de computação e dados; aproveitamento da inovação para aumentar a produtividade e reindustrializar o país; e conversão da riqueza energética e mineral em tecnologia e valor agregado, ao invés de uma exportação primária.
Ciência como política pública
Ao questionar que tipo de Brasil os candidatos planejam deixar para as futuras gerações, quais indicadores utilizarão para avaliar esse legado e quais três mudanças estruturais irão iniciar, a SBPC buscou mover a discussão de promessas vagas para objetivos que podem ser verificados.
Essa necessidade se faz pertinente em um país que ainda luta para aumentar o investimento privado em pesquisa e desenvolvimento. A questão, conforme análises sobre o tema, não é simplesmente apoiar a inovação em palavras, mas como mobilizar empresas, definir prioridades e mostrar resultados.
Para conselhos e lideranças C-level, a falta de objetivos, fontes de financiamento e cronogramas transforma promessas eleitorais em riscos de implementação. Propostas que incluem instrumentos bem definidos — como o fortalecimento da Finep, do FNDCT, do BNDES e da Embrapii — oferecem uma perspectiva mais clara sobre a continuidade das políticas e as potenciais parcerias entre o setor público e o privado.
Respostas diferentes no segundo turno
Até o encerramento do prazo estipulado pela SBPC, somente a campanha de Lula havia enviado respostas; já a campanha de Flávio Bolsonaro não as enviou. Dessa forma, a entidade publicou na íntegra somente o conteúdo da chapa petista.
Na resposta, a campanha de Lula e Geraldo Alckmin caracteriza a comunidade científica como “parceira indispensável” e assegura que o diálogo com universidades, institutos de pesquisa e entidades científicas continuará a orientar a criação e o aprimoramento de políticas públicas.
A campanha também organizou suas respostas em compromisso, meta, prazo, fonte de financiamento e meios de execução — o tipo de pormenor que permite medir a viabilidade e a responsabilidade fiscal das propostas.
O silêncio também comunica
Mas a falta de resposta não significa, necessariamente, que não haja propostas: programas de governo podem incluir diretrizes específicas sobre inovação, setor industrial e tecnologia. No entanto, na abordagem do Observatório, a ausência diminui a chance de uma comparação direta, usando as mesmas perguntas, regras e prazos para ambos os candidatos.
Nesse caso, o silêncio, para o mercado, adiciona uma camada extra de incerteza em relação às futuras prioridades em questões delicadas, como a regulação de plataformas digitais e da inteligência artificial, a inovação nas compras públicas, o financiamento da pesquisa aplicada e a política industrial.
A SBPC anunciou que iria publicar as respostas na íntegra, sem cortes, edições ou resumos que comprometessem a comparabilidade do exercício.
Programação que vai além do laboratório
O Observatório também organizou candidaturas em outras esferas. Foram consolidados compromissos em torno de ciência, democracia e soberania, os quais foram assinados por candidatos e candidatas que já ultrapassam 180, de acordo com a SBPC.
Essa interconexão é fundamental, uma vez que as políticas científicas necessitam da colaboração entre o governo federal, os Estados, as universidades, as agências de fomento e o setor produtivo. Sem um alinhamento federativo, corre-se o risco de dispersão de recursos, duplicação de programas e uma demora na transformação da pesquisa em produtos, empregos e aumento da produtividade.
O que os executivos precisam observar
Como apoio ao mercado, além de estudos como o informado acima, a SBPC fornece um roteiro de due diligence política para empresas que atuam nos setores de tecnologia, saúde, energia, agronegócio e industrial. Os pontos mais urgentes incluem: a previsibilidade do FNDCT e da Finep; a regulamentação da IA, dos dados e das plataformas; a política de compras públicas; os incentivos à P&D empresarial; e a estratégia para os recursos minerais e energéticos.
A relação entre ciência e trabalho também merece destaque. A questão da reindustrialização, da geração de empregos qualificados e da capacitação dos trabalhadores para as mudanças tecnológicas já antecipa discussões sobre requalificação, produtividade e competitividade no cenário internacional.
Da promessa à gestão estável
A proposta da SBPC não elege, mas estabelece um registro público e comparável das escolhas dos candidatos. No mundo dos negócios, ela auxilia na diferenciação entre palavras e ações, especialmente quando as respostas mencionam objetivos, prazos, fontes de financiamento e ferramentas de monitoramento.
O próximo grande desafio será converter esse diagnóstico em governabilidade: um orçamento garantido, agências robustas, uma regulação estável e uma colaboração eficiente entre universidades, startups, indústrias e o governo. Nesse processo, a ciência deixa de ser um tema de campanha e passa a ser o motor do desenvolvimento econômico do Brasil.
E na falta de uma comparação possível, vale refletir sobre o futuro num exercício de imaginação. Mas, para quem considera o silêncio uma resposta, isso não será necessário e a comparação, gostemos ou não dela, poderá ser feita. Pelo bem da ciência, isso será necessário.
Para quem quiser saber mais sobre a iniciativa da SBPC, o projeto completo está neste link: https://portal.sbpcnet.org.br/observatorio-eleicoes2026/
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