Por Tatiana Pimenta

Recentemente recebi o convite de um jornal para falar sobre minha experiência como empreendedora. No dia da gravação, durante um papo descontraído, contei ao jornalista como havia surgido a Vittude. Falei da ideação, das fases que passamos e das conquistas atuais. Uma das perguntas feitas foi sobre a eficácia dos programas de aceleração.

Ele compartilhou que frequentemente recebe e-mails de aceleradoras, querendo participar de alguma pauta do jornal. Além disso, ao longo das entrevistas com outros empreendedores, observou que alguns problemas costumam ser comuns entre empresas que passaram por aceleração. Uma das queixas recorrentes era o excesso de diluição do capital social, o que eu aprendi a chamar de cap table sujo com alguns fundos de investimento.

Além disso, essa semana li uma matéria noticiando o encerramento do programa de aceleração da ACE, antiga Aceleratech, uma das mais prestigiadas aceleradoras brasileiras. A decisão, muito comentada no ecossistema e nos grupos de whatsapp de empreendedores, com certeza é um avanço a ser celebrado.

Enquanto empreendedora, pude experimentar dois opostos. Passei por dois programas de aceleração. Ambos proporcionaram momentos de aprendizado, no entanto, um deles gerou também frustração e muita dor de cabeça. Decidi compartilhar a minha experiência com aceleradoras de startups e talvez ajudar futuros empreendedores a fugir de algumas possíveis armadilhas.

Se você está avaliando recorrer a alguma aceleradora para avançar com sua startup, separe uns minutinhos para ler os próximos parágrafos! Eu adoraria que alguém tivesse me contado, 3 anos atrás, tudo o que vou escrever abaixo. Tenho certeza que esse conhecimento teria me livrado de algumas noites sem dormir e muitos comprimidos de advil.

Afinal, aceleração de startups vale à pena?

Minha resposta é depende!! Cada um sabe bem onde seu calo aperta, não é mesmo? O primeiro ponto, e talvez o mais crucial de todos é entender qual é a contrapartida do programa de aceleração. Se houver equity envolvido, abre o olho!

 Esse equity, que parece inofensivo quando estamos começando a empresa, pode inviabilizar completamente o crescimento e o futuro da sua startup. Na matéria que citei acima, há um parágrafo que explica exatamente o que eu quero dizer.

“No começo da aceleradora, era comum investir de 20 a 50 mil reais nos negócios em troca de 10 a 15% de participação. Tais valores, hoje, seriam pouco para o caixa de uma startup e a participação inviabilizaria a captação de rodadas posteriores.”

Logo, ceder equity em função de mentorias e um pequeno aporte de dinheiro, ao invés de ajudar, pode inviabilizar completamente seu sucesso.

A boa notícia é que tem crescido o número de programas e iniciativas de apoio a startups em nosso país! Siga comigo.

Fomento e contribuição ao ecossistema

Algumas organizações têm estruturado programas de aceleração corporativa com o objetivo de contribuir para o fomento do ecossistema. Entre elas, cito duas que amo de paixão: Google e Facebook. As duas organizações possuem programas de residência e aceleração no Campus São Paulo e na Estação Hack, respectivamente.

Apesar de não ter sido acelerada pelo Google for Startups Brazil, a Vittude teve a alegria de ser indicada pela organização, por meio da Fernanda Caloi, para um programa de imersão no Vale do Silício chamado BlackBox Connect. Nesse programa, fiquei duas semanas em São Francisco com outras 13 empreendedoras de todos os continentes. Recebi uma bolsa de U$$ 17 mil do Google for Startups e tive a oportunidade de me desenvolver enquanto líder e CEO. Essa imersão tinha por objetivo desenvolver as fundadoras, dar a elas instrumentos que ajudassem a levar sua organização para um próximo nível. Não canso de dizer que foi uma das experiências mais ricas que já tive o prazer de experimentar. O programa de residência no Campus também é reconhecido por empreendedores do ecossistema como sendo diferenciado e bastante disputado.

Em 2018, a Vittude foi uma das 10 startups selecionadas pela Artemisia para aceleração na Estação Hack, primeiro centro de inovação do Facebook no mundo. O programa tem um foco voltado para Impacto Social. Trata-se de uma aceleração destinada a startups que utilizam dados para o bem. O principal diferencial é que cada empresa possui a figura do acelerador (membro da Artemísia que vai acompanhar semanalmente a startup) e o mentor Facebook. Estamos falando de um programa de aceleração personalizado para a necessidade de cada organização. Ao início estabelecemos em conjunto qual será a meta de crescimento, se existe necessidade de mudança no modelo de negócios ou se há uma demanda, por exemplo, de coaching ou preparação do time. Todas as empresas que passam por lá experimentam não só crescimento, como um aumento significativo do networking e exposição a parceiros e potenciais investidores.

Além do grande aprendizado proporcionado por essas organizações, o mais legal é que nenhum dos programas que citei acima tomam equity dos fundadores.

Aceleração vs. Participação Societária

Muita calma nessa hora! É exatamente aqui que mora o perigo e onde você, empreendedor, deve analisar com bastante cuidado se precisa ou não de uma aceleradora.

Um ponto positivo de qualquer processo de aceleração é a construção do networking. Aprendemos muito com outros founders. Além disso, as mentorias também são importantes para a quebra de paradigmas e evolução do negócio. De fato, as conexões corretas ajudam qualquer empreendedor a avançar mais rápido e tracionar seu negócio. Porém, se para ter acesso a essas pessoas é preciso ceder uma parcela da sua empresa, alguns pontos precisam ser analisados.

Investimento

Haverá algum aporte financeiro durante ou após a aceleração? Qual o montante a ser investido? Aqui, o importante é refletir até onde a quantidade de dinheiro aportada levará sua empresa. Se o valor for pequeno, provavelmente você precisará de investidores muito cedo e isso vai comprometer a saúde do seu cap table. Vale à pena assistir o vídeo abaixo.

Em programas como o da Y Combinator (YC), nos Estados Unidos, o equity costuma ser de 7%, por um aporte de U$150mil. Valor interessante para levar uma startup para um próximo momento de validação de hipóteses e tração. Mais que isso, organizações como a YC possuem um bem muito precioso chamado rede de relacionamento. Boa parte das startups que passam por lá já estão alguns passos à frente quando o assunto é Fundraising.

Infelizmente, isso não acontece no Brasil. Vemos aceleradoras que aportam R$50mil e estabelecem um contrato de participação de 10%. Elas literalmente amarram uma âncora nos pés dos empreendedores na largada. O modelo tem mudado um pouquinho, com aportes aumentando, mas ainda com percentuais nocivos ao crescimento futuro.

Além disso, existe algo mais delicado que o investimento desproporcional à tomada de participação acionária. Aqui, esse networking robusto que vemos nos Estados Unidos, onde as startups saem da aceleração com um pool de investidores interessados, não acontece. E aí começa o estresse e a dor de cabeça.

Alguns passos atrás

Quando precisei fazer nossa segunda rodada de investimentos me deparei com um problema. Muitos dos fundos que visitava gostavam da tese, viam que o negócio estava crescendo, tracionando, apresentando bons unit economics, mas se recusavam a investir. A razão? Cap table sujo! O que isso quer dizer, Tati? Isso significava que nós estávamos mais diluídos do que deveríamos para o estágio atual da startup. Vários deles tiveram a paciência de explicar que as decisões tomadas no passado poderiam levar minha empresa ao fracasso. Pensem no meu desespero!

A primeira ficha que caiu foi que o primeiro processo de aceleração tinha nos deixado em uma situação pior e não melhor para a sobrevivência da empresa. Em alguns casos, cheguei a ouvir que o fundo não gostava de analisar empresas que tinham passado por aceleração. Fui orientada, então, a negociar a reorganização do cap table. O que, vocês podem imaginar, não é nada fácil. Portanto, se você está pensando em aceleração, minha dica é sempre ponderar se o processo fará sentido.

A importância de um advogado

Um dos grandes equívocos que já cometi foi achar que tinha compreendido 100% do contrato e não submeter o mesmo à análise de um advogado antes da assinatura. Cuidado com as pegadinhas, em especial em cláusulas de não diluição. Preste atenção nos prazos contratuais, entenda perfeitamente o que cada um deles significa. Veja cláusulas de governança e preferência. Contrate um advogado que tenha experiência na área, isso vai evitar que você se meta em encrencas no futuro. Mais que isso, você poderá dormir tranquilo, tendo a certeza que está sendo orientado por um profissional experiente.

Tudo é sobre pessoas e valores

Quando estamos falando em ceder participação acionária, precisamos ter em mente um casamento. Vamos ganhar um novo sócio. Logo, você precisará conviver com outras pessoas durante sua jornada empreendedora. Em se tratando de uma aceleradora, procure saber quem são as pessoas à frente do negócio, os investidores e quem está na linha de frente cuidando do portfólio. Busque referências no mercado, entre em contato com founders que passaram pelo processo e peça feedbacks. Fale com quem está indo bem e com os que já encerraram a operação. Isso com certeza trará muitos insights.

No final das contas, tudo é sobre pessoas e relacionamento. É importante tentar descobrir como essas pessoas se comportam nos momentos difíceis. Em situações de crise, elas vão remar junto para te ajudar ou vão sair correndo e te abandonar? Esse é um ponto crucial.

No momento em que mais precisei de orientação e ajuda da aceleradora, foi onde menos tive apoio. Me deparei com uma postura totalmente imatura do CEO, como o não atendimento de ligações telefônicas, e-mails sem respostas, whatsapp sem retorno. Quando compartilhei o feedback dos VCs, recebi uma resposta com descaso, ah, faça um crowdfunding e você resolve isso. Ao invés de ser o melhor guia na situação, foi o pior parceiro que uma empresa poderia ter. Comportamento que me deixou completamente frustrada e com a certeza de que tinha de fato entrado numa fria.

Apesar de todos os desafios e frustrações, toda queda leva a um aprendizado. Inclusive há um ditado que diz que o que não mata, fortalece. Aprendi que uma das características essenciais de um empreendedor é a resiliência. Os obstáculos acabam ensinando muitas lições. O mais importante é seguir em frente, crescendo, amadurecendo, compartilhando e adquirindo conhecimento com outros empreendedores!

Sobre as enrascadas com a aceleradora, nada como o tempo e bons mentores para encontrar a melhor solução! E se você estiver pensando em aceleração, pesquisa bem e, se puder, eleja aqueles programas e organizações que irão ajudar você no futuro e evite as que podem ser um verdadeiro freio de mão na sua trajetória!


Tatiana Pimenta, CEO e fundadora da Vittude. Faz psicoterapia pessoal há mais de 5 anos. É uma grande estudiosa de diversos assuntos relacionados à saúde mental. Tem dedicado atenção especial ao tema da felicidade e à forma como reprogramamos nosso cérebro para ter mais emoções positivas. Possui mais de 15 anos de experiência profissional, tendo atuado em organizações nacionais e multinacionais de grande porte como Votorantim, Cimpor (Cimentos Portugal), Arauco e Hilti do Brasil.

Publicação Original


0 comentário

Deixe uma resposta