* Por Sérgio Roque

Apesar das várias críticas que li e escutei sobre Paulo Coelho, quando li alguns dos seus livros sempre tinham lições interessantes.

Em um deles, não lembro qual, ele dizia para nunca reclamar dos problemas que te acontecem no dia a dia, porque você nunca sabe quando é na verdade seu Anjo da Guarda lhe salvando.

Isso ficou gravado na minha mente, pois logo depois uma amiga me disse que tinha ficado extremamente fora de si com o trânsito de São Paulo e um suposto erro do motorista de táxi que a fez perder o voo TAM 402.

Ela relatou que chorava compulsivamente, gritava e xingava os céus e até o motorista do táxi que nada mais podia fazer.

Se ela não tivesse se atrasado, se uniria às 99 vítimas deste avião que caiu perto do Aeroporto de Congonhas logo após decolar.

Sua forma de ver a vida mudou completamente. A proximidade da morte faz com que o sentido de gratidão se incorporasse a alma.

Todos hoje em dia proclamam que este sentimento de gratidão deve ser construído pelo nosso pensamento. Que devemos construir o reconhecimento interno pensando em nossas conquistas. Porém, na maioria dos nossos fracassos, o futuro não nos mostra o que iria acontecer. E muitas vezes poderia ter sido bem pior.

Meu último chefe dizia que eu tinha um anjo da guarda tão grande que com as asas dele abertas uma ponta estava no Nordeste e a outra no Rio Grande do Sul.

Dizia isso porque ele sabia o que tinha acontecido comigo e o que ia acontecer no futuro próximo.

Em 2005 eu trabalhava como diretor nacional de vendas para a MMT Metromedia Technologies, empresa americana. Ela resolveu sair do país e eu soube que estava colocando à venda a fábrica aqui, em sistema porteira fechada, pelo preço do passivo com preferência para o meu chefe.

Por várias razões que na hora me pareceram muito boas eu resolvi me colocar como comprador. Mesmo quando a controler geral do grupo me advertia que o passivo poderia ser grande.

Então, ingenuamente arrumei uma reunião com a contabilidade e o contador não só me deu muitas informações, quanto me contou todos os problemas financeiros do meu chefe. Porém contou para ele também e eu fui despedido.

Fiquei puto. Peguei um voo para Nova York e fui à matriz. Sai de lá com a promessa de ter a preferência na compra. Nos meses seguintes, várias reuniões por telefone e o negócio se tornou real a ponto que envolvi meu pai para me ajudar como sócio e marcamos a assinatura do contrato para o começo do ano seguinte, dia 17 de janeiro.

Faltava apenas a última demonstração financeira, pois a que recebemos apresentava várias lacunas sem informação.

Esta demonstração nunca veio. Eles continuaram me enrolando e garantindo que estava tudo certo para janeiro e que iriam enviar o que faltava.

Em janeiro seis coreanos de uma empresa fornecedora de matéria prima apareceram na empresa como donos.

Fiquei puto da vida. Passei meses reclamando e xingando os americanos. Levei o time comercial quase inteiro para trabalhar comigo.

Um ano e alguns meses depois, viria a Lei Cidade Limpa, que eu e meu atual chefe já esperávamos. Lei que fechou várias empresas do setor, inclusive a que eu estava trabalhando.

Somando tudo isso à situação financeira da empresa e tantos outros problemas, depois de alguns meses, eles resolveram literalmente fugir do país. Sem pagar os impostos, bancos, funcionários, ninguém.

Se eu tivesse comprado a empresa não teria como fugir e provavelmente hoje estaria devendo alguns milhões para muita gente e nunca mais me recuperaria financeiramente na vida. Ou não. Nunca saberemos!

O que eu sei é que reclamei quase um ano e só fui saber meses depois  que o que aconteceu pode ter sido a melhor coisa que poderia ter acontecido na minha vida.

Na verdade, eu salvei meu ex-chefe de uma ruína maior ainda, assim como os americanos safados me salvaram também.

Assim, toda vez que me acontece algo ruim, mesmo com muita vontade de reclamar, eu me seguro. Às vezes penso, fico nervoso até, mas lembro destas duas estórias e espero.

Depois de um tempo agradeço tudo que Deus me deu, me dá e me dará e toco a vida em frente.


Sergio Eduardo Roque é coach executivo e de vida com foco em processos de autoconhecimento na SerOQue Desenvolvendo Pessoas. Com formação em engenharia (FAAP) e marketing (ESPM) atua há mais de 25 anos no mercado como executivo e empreendedor.

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