Quem gosta de perfumes com certeza já passou pela experiência de ir até uma loja e ter que borrifar o perfume em uma tira de papel para sentir o cheiro. Após cheirar três essências diferentes seu poder olfativo está alterado, não é a toa que em várias perfumarias existe um potinho com os grãos de café para que o cliente o cheire e limpe seu olfato. Além disso, quem lembra das famosas revistas da Avon onde você raspava o dedo ou pulso e conseguia sentir a fragrância? Nada higiênico para os dias de hoje né?

Pensando em solucionar essa dor, a empreendedora Cláudia Galvão criou a Noar, startup de cheiro digital, que fará com que as pessoas experimentem um perfume usando o seu celular ou tablet.

Claudia é engenheira civil e nasceu em Pará de Minas (MG), e trabalhou na Ananse, que desenvolveu um processo de nanotecnologia e microcápsulas para incluir aditivos em tecidos e acabou aprimorando essa tecnologia para encapsular fragrâncias. Eles utilizam a nanotecnologia para aplicar fragrâncias sobre superfícies como papel, plásticos, e outros materiais, e atendem grandes empresas de cosméticos que utilizam as tecnologias para demonstrar seus produtos nos catálogos de venda direta. Sim, as famosas revistas da Avon.

Em entrevista ao Startupi a empreendedora conta que a ideia de criar a startup surgiu em 2015 após passar por um período sabático. “Estávamos vendo o mercado editorial, publicitário e da informação passarem dos meios físicos, impressos, para os meios digitais. Revistas inteiras sendo desativadas, jornais online substituindo o papel. Pensamos que provavelmente os catálogos de venda direta passariam pelo mesmo processo e nosso negócio poderia desaparecer. Precisávamos estar prontos para o futuro. Eu também sentia falta de inovação na maneira de demonstrar perfumes. Afinal, a indústria usa as mesmas ferramentas há muitos anos”, destaca.

Cláudia Galvão, CEO da Noar.

“MultiScent 20” – tecnologia que vai revolucionar o mercado de venda direta 

O primeiro produto da Noar a ser lançado no mercado será o MultiScent 20, um demonstrador digital de fragrâncias controlado através de um aplicativo, que será lançado no Brasil no segundo semestre de 2020 pela Natura.

O aparelho tem o formato similar a um tablet e permite experimentar 20 fragrâncias diferentes. Ele funciona com um sistema de mini cartuchos que devem ser substituídos após 100 disparos. A pessoa seleciona o perfume que quer sentir no aplicativo desenvolvido para a marca (no caso a Natura) e comanda o disparo através do seu próprio celular.

O MultiScent 20 libera a fragrância através de um sistema de ar seco, que não deixa resíduos do perfume no ar, no dispositivo ou no usuário. Isso faz com que seja possível experimentar várias fragrâncias na sequência, sem se confundir.

O aplicativo poderá ser baixado por qualquer pessoa, para que ela mesma opere o demonstrador. Neste momento de pandemia, no qual as pessoas precisam evitar tocar os objetos fora de sua casa, isso se tornou importante. A pessoa precisa tocar apenas seu próprio smartphone e pode sentir a fragrância que ela mesma selecionou sem precisar retirar a máscara.

“Em alguns mercados, como o de cosméticos e o de alimentos, o cheiro é um estímulo essencial para concretizar uma venda. No caso da perfumaria, é o fator decisor da compra. Então, neste momento em que o e-commerce está se tornando cada vez mais importante, o uso de uma scent technology pode representar uma grande vantagem competitiva para uma marca”.

Apesar de pouco conhecidas no Brasil e no mundo, as scent tech, são empresas que criam tecnologias para disponibilizar cheiros através dos meios digitais. Esses meios já são muito avançados no uso das imagens e sons, oferecendo experiências incríveis como a Realidade Aumentada, mas ainda estão engatinhando quando se trata de utilizar o olfato para enriquecer a experiência de navegação e compra do consumidor. Segundo Claudia, há pouquíssimas empresas que oferecem esse tipo de solução no mundo, tanto que ainda nem se fala em calcular o tamanho desse mercado. Mas há demanda por diversos setores, não apenas o de cosméticos.

Desenvolvimento e investimentos

Claudia conta que tem trabalhado para oferecer o cheiro digital desde 2015. O dispositivo já teve vários formatos e tamanhos diferentes, dependendo dos clientes potenciais que queriam abordar e dos seus modelos de negócio. O projeto foi totalmente desenvolvido no Brasil, e demandou um investimento de R$ 4 milhões durante a sua fase de desenvolvimento.

“Nós estivemos buscando investidores durante grande parte da fase de desenvolvimento, mas acabamos usando recursos da Ananse para ir tocando o projeto. Contudo, chegamos ao nosso limite e não seria possível passar à fase de implementação, para a qual teríamos de investir em moldes, ferramentas, pessoas e insumos sem contar com o capital de um investidor”, conta.

Assim, o Grupo Wheaton, empresa líder nacional e uma das maiores fabricantes de embalagens de vidro para o segmento de perfumaria e cosméticos no mundo, confiou na proposta inovadora da empresa e irá investir R$30 milhões ao longo dos próximos cinco anos.

Renato Massara Júnior, diretor Comercial e de Marketing da Wheaton, explica que a empresa estava à procura de uma startup ligada ao mercado de perfumaria e cosméticos que trouxesse uma disrupção significativa. Ele diz que os investimentos foram feitos na Noar justamente porque a startup busca inovação e sustentabilidade, dois dos principais pilares da Wheaton.

De acordo com Renato, a Wheaton, que tem capital 100% nacional e faturamento anual de cerca de R$ 1 bilhão, registra crescimento acima de 7% por ano e possui cerca de 3,5 mil funcionários, tem internacionalizado ainda mais suas operações, chegando a diversos países. Por isso, um fator que contribuiu para o investimento na Noar foi o alinhamento com esse objetivo, já que a tecnologia criada pela empresa também foi patenteada internacionalmente.

Lançamento com a líder mundial do mercado

O primeiro cliente da startup para aquisição do MultiScent 20 é a marca Natura, que conta com 1,2 milhão de consultoras de beleza no Brasil.

Por estar na vanguarda das vendas diretas e da indústria de perfumaria e cosmética, a Natura desde cedo reconheceu a necessidade de se estabelecer no universo digital. Roseli Mello, head global de P&D de Natura, afirma que o MultiScent 20 representará a oportunidade de contribuir para a aceleração do processo de transformação digital nos canais da empresa.

A executiva explica que o MultiScent 20 deverá chegar ao varejo e para as consultoras de beleza até o final do ano, no Brasil e América Latina. No contexto de isolamento social, outro fator de relevância é a segurança que o aparelho oferecerá para os consumidores. “O device é uma oportunidade segura de experimentação de fragrâncias, pois pode ser feita com o uso de máscaras de proteção”.

Além disso, como o aplicativo trabalha em uma plataforma conectada, ele vai permitir a coleta de dados dos usuários, possibilitando análises de data Science, que podem ser usadas para entender as preferências do consumidor, a taxa de conversão em compra e muitas outras possibilidades.

“Depois da compra da Avon, a Natura é a maior empresa de venda direta do mundo e a maior marca de cosméticos do Brasil. Dentro do seu canal, ela tem sido a pioneira em se posicionar no universo digital e viu na tecnologia Noar uma oportunidade de acelerar o seu processo de transformação digital. Para a Noar, lançar o cheiro digital com uma empresa desse porte é um excelente começo. Avaliza todos os nossos esforços”, destaca a empreendedora.

Claudia conta que eles possuem várias outras inovações que utilizam a tecnologia de cheiro digital em fase de protótipo ou em desenvolvimento, com conceitos que podem integrar a internet das coisas a campanhas de marketing e se aplicar a vários segmentos.

“Há muitos outros mercados que podem se beneficiar desse recurso. Já iniciamos discussões com alguns deles, como o automotivo e o alimentício. O público pode esperar ser surpreendido, pois vai vivenciar um novo tipo experiência de compra, multissensorial e intuitivo”, finaliza.

Publicação Original


0 comentário

Deixe uma resposta